quinta-feira, 2 de julho de 2009

Bandeiraço literário

São Paulo é a capital cultural do país? Duvido muito. É apenas onde giram as coisas com alguma sustentação financeira. Mas daí a dizer que São Paulo "produz mais cultura" que qualquer outro lugar é um exagero. Se tanto, produz em número proporcional à sua população - que é a maior do país. Mas até aí, não é uma avaliação válida, principalmente do ponto de vista qualitativo.

Mas é fato que em nenhum lugar se consome mais livros e se vai mais ao teatro que aqui. Talvez justamente por ser a cidade mais populosa, mas isso não vem ao caso. O que me incomoda é que as pessoas que vão a exposições, frequentam livrarias e assistem peças teatrais parecem entrar numa grande briga para saber o que é mais inteligente, de melhor gosto ou mais vanguardista.

Toda essa discussão me parece como aquelas vizinhas que ficam se alfinetando mutuamente porque uma comprou um sapato que a outra não tem. De verdade, isso é a coisa mais infrutífera que já vi, e eu não veria problema nenhum no fato - todo mundo precisa de uma picuinhazinha para temperar a vida de vez em quando - não fosse a aura de arrogância, de sabedoria superior que todo mundo joga em sua argumentação.

Porque - olha só - até gente bacana cai nesse papo. Li no blog do Márcio Américo (linkado aí do lado), que vem para SP esporadicamente (ele mora el Londrina), um comentário elogioso ao livro novo do Reinaldo Morais, Pornopopéia, que detona comparativamente uma série de leitores e escritores.

Eu não vou jogar pedras porque eu mesmo vivo caindo nessa armadilha. Não me conformo em ver gente chamando o Helio Flanders de "Bob Dylan maotgrossense" (Humberto Finatti dixit) e, se vou escrever sobre alguma banda nada badalada, acabo usando um comentário bunda dessa para enaltecer a banda que estou resenhando. Mas reconheço: esse é um recurso fácil, preguiçoso e que não ajuda em nada o "objeto" da minha própria resenha. Uma banda (ou um livro, um filme, uma peça...) é boa por si só, não é necessário detonar uma outra obra para validar a que você acha boa. Mas parece que isso tá virando moda.

O texto do Márcio segue ainda detonando até a série pocket da L&PM. Pô, não é por nada, mas eu acho do caralho ter livros do Nietzche bem traduzidos e colocados à minha disposição por 11 reais. Pagar R$ 7,00 no A Desobediência Civil, do Thoreau, me parece até coerente com a proposta de livro. Não acho que livros tenham que ser como as edições da Cosac&Naify: lindas, bem-cuidadas, inventivas - mas em geral caras pra caralho.

Não, não tô dizendo que é errado gastar R$ 80,00 num livro. Cada um gasta sua grana como quiser. Tem quem pague até mais que isso num rango. Vai do gosto e das prioridades de cada um. Mas eu só acho que livros podem custar barato, sim. E podem trazer clássicos. O fato de existirem bons e novos autores não tira em nada o brilho dos antigos. Claro, algumas coisas ficam datadas, e tem "clássicos" que não dizem nada para determinado leitor - não tem santo nem demônio que vá me fazer ler José de Alencar, MAchado de Assis, Cruz e Sousa e quejandos. Não escrevem para mim. Podem ser fundamentais e etc, mas não me dizem nada.

Mas Herman Melville diz. Thoreau, Poe, Lima Barreto, Drummond, e mais uns tantos falam comigo e para mim. Porque literatura é uma coisa altamente pessoal. É a sua relação com o autor, com os personagens, com a história, com o que não está escrito. Assim, um cara pode pirar com a sofisticação do Evelyn Waugh mas nem por isso vai deixar de curtir alguém bruto e direto como Pedro Juan Gutierréz. É possível se emocionar com a singeleza do Rubem Braga sem deixar de se aventurar pela crueldade de um Rubem Fonseca em boa forma. Uma coisa não exclui a outra.

Mas aí, você encontra pessoas que escrevem, que pintam, que leem - enfim, que "vivem", "precisam de" ou "respiram" arte (notem as aspas). Cada um levantando sua bandeira e desdenhando a dos outros. É como você ser um fetichista X e sacanear outro cara que tem o fetiche Y.

Arrogar-se superioridade é legal quando feito de forma não-séria. Se você assistiu as cenas da loja de discos em Alta Fidelidade sabe do que eu tô falando. Mas se isso vira o seu cavalo de batalha, é praticamente uma prova de que tanta leitura e "arte" em geral não lhe serviu para muita coisa.

Por isso que eu prefiro ir num sebo (ou nas bancadas da L&PM), procurar meus livrinhos em silêncio e com a maior cara de paisagem possível, e voltar para casa e ler sozinho num canto. Bandeiras, já tem Heloísas Helenas demais levantando-as.

8 comentários:

Túlio disse...
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Túlio disse...

Nenhum leitor é medíocre. Nem o que lê pocket books e nem o que lê Paulo Coelho.

O leitor no Brasil é uma pequena inha cercada de lixo televisivo e massivo. Admirável é quem sai um pouco disso e dá uma atenção para as letras. Achar gente que lê deve ser comemorado e qualquer iniciativa de leitura é mais do que válida, nem que sirva de mau exemplo.

Anônimo disse...

coerente.

André disse...

num país semi-analfabeto, é errado SIM um livro custar 80 reais.

errado igual as edições pocket importadas custarem menos que a edição nacional, geralmente com uma tradução escrota.

aliás, pocket é o que há. L&PM é foda, descobri muito autor lendo as edições dela na faculdade, quando eu não tinha dinheiro pra nada mas podia comprar um livro de 7 reais na banca.

rkjazz disse...

vou revolucionar a indústria e lançar o "boquete book". enquanto vc lê, por apenas 30tão... vai rolando... é a tal da leitura com prazer, hehehehehe.abraço, leo.

fernando lalli a.k.a. bôe disse...

"vou revolucionar a indústria e lançar o 'boquete book'"

HAHAHAHAHAHAHA!!!

Ivan disse...

porra rubens. não sabia que vc já tava apelando pra isso. foi só ir pra sp. influênca do meio? sabe como é teatro...

ahahaha

e como dizia o pasquim, todo paulista é viado

rkjazz disse...

... ivan, seu viado, vc é um dos contratados pra fazer o "boquete book". sei que vc ficou meio puto de ficar de fora dessa agitação cultural e tals... foi mal. era pra ser só as minas desempenhando - acredito que os leitores preferem assim -, mas, levanto em conta a tua verborragia, hehehehehe, contratado!