Sempre tive um problema grande com "discurso" - aquela coisa de levantar bandeiras, sabe? Era um dos pontos que mais me incomodava na religião católica, e tenho certeza (mesmo não tendo condições de fazer uma retrospectiva adequada agora) que esse foi um dos motivos que me levou a sair da Igreja: ter que seguir um discurso tão ferrenho e imutável que não pode abrir espaço para as mudanças trazidas por seu aprendizado não me agradava em nada. Parecia um roteiro certo para a frustração e a estagnação.
Aí vou eu hoje no G1 e leio isso. O cara que, todo felizinho, dizia que "computadores fazem arte" sai detonando a internet. O cara que dizia "nós não estamos sem gravadora, as gravadoras é que estão sem a gente" falando que era bom estar numa companhia grande. Lembra do que o Joe Strummer escreveu sobre Pete Townshend? "He who fucks nuns will later join the church" (em "Death or Glory"). E depois excursionou com o Who. Issa!
Coerência. É uma das coisas mais supervalorizadas que conheço. Nãop estou dizendo que todo mundo deve ser igual um certo presidente de uma republiqueta aí, rei de alianças espúrias com gente que ele se dedicou a combater. Coerência é bom, sim. Mas pra ela virar teimosia ou armadilha é um pulo.
O único remédio - ou melhor, a úncia prevenção para isso - é não sair por aí portando estandartes que podem ser pesados depois. Não é fugir da raia - e sim entender que aquilo que você tem plena certeza com x anos pode muito bem virar algo questionável (por você próprio) em x + 14.
É uma medida simples: tá dando a cara pra bater? Não reclame se apanhar, então. Zero Quatro chegou a declarar que só ia lançar discos pela web, e que não precisava mais do formato físico. Viu que não era bem assim e agora tá se enrolando para justificar. O André me falou que o Jorge Du Peixe também entabulou um discurso incmpreensível anti-música digital no show de comemoração dos 15 anos de Da Lama ao Caos. E eles, tão pró-novas mídias...
Eu era o santarrão de plantão quando estava na Igreja, e olha só?! Virei pornógrafo.
Honestamente, acho maravilhoso que tenhamos essa possibilidade de mudar. Mas aí - pra citar outro músico, Paul Weller - "já dei declarações das quais me arrependi. Mas quem não faz isso? A única diferença é que as minhas são gravadas".
Eu escrevo textos. Eles ficam impressos, ou flutuando aqui no - termo de velho chegando, 1, 2, 3 - cyberespaço. É MUITO fácil eu escrever algo de que vá me arrepender depois. Como já aconteceu várias vezes. É um risco que eu vivo correndo. Por isso evito ser discursivo. Tenho valores que importam, sim, e prefiro mantê-los dentro de mim. Assim opero a coerência sem incorrer na verborragia. Sei que tem gente que chama isso de falta de culhão, e até entendo. Cada um sabe até onde se arrisca e o que tem a perder.
Tem gente que ironiza minha presença numa revista customizada. OK. Só que eu prefiro trabalhar numa publicação que carrega, claramente, o nome das empresas envolvidas na capa, do que sair por aí fazendo jabá velado. É um trampo corporativo, sim, nem por isso sacal. Tem o lado mala, mas até aí, todo trampo tem. Bons textos podem ser feitos em qualquer veículo, basta ter um bom direcionamento. E não é por nada, acho que o trampo tá saindo do caralho. Quem discorda está no seu direito. Mas eu também tenho o direito de curtir o que faço.
E não me lembro de ter sido discursivo quanto a isso. Como falei, tô mais sossegado fazendo um produto assumidamente corporativo que pirateando minhas aulas a troco de migalhas. Sim, professores também se vendem. E feio. Como eu não aceitava isso, pulei fora da profissão.
Isso eu chamo de coerência. Pra mim, serve.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário