domingo, 8 de novembro de 2009

Search and purchase


Nunca pensei que um dia daria razão ao Lobão em qualquer coisa, mas ele estava certo: o rock errou. Constatação feita após ver o show do Iggy Pop no Planeta Terra.

Errou não porque Iggy é um velhinho que foi ao palco dar exatamente o que esperávamos dele, como uma refeição por quilo ou um filme do Michael Bay. Iggy é, sim, um monstro, cujas canções (algumas delas, bem entendido) não têm prazo de validade, e não é porque ele tem 60 e tantos anos que ele não pode ser rock’n’roll pra caralho. O problema é que sejam apenas os tiozões da música os únicos capazes de soar rock’n’roll pra caralho.

Não vamos nem debater aquele conceito de “rock’n’roll enquanto rebeldia” que esse papo já é meio datado desde que Elvis foi pro exército, e nunca mais voltou (quer dizer, voltou alguém, talvez a cria do Coronel Parker, mas não o Elvis do rebolado perigoso e da energia libidinosa). Mas você já pensou que, quando você precisa lembrar de canções roqueiras fudidas, você precisa voltar, no mínimo, uns 15 anos no tempo? Para ser bem generoso.Quando você quer aquela energia bruta capaz de te perverter, capaz de fazer você se sentir vivo, fazer você ter desejo de enrabar a vida até ela gozar pelo cu, você recorre a uma música do, sei lá, Franz Ferdinand? (tosse, pigarro) Ou a alguma do Klaxons? (engasgo)

Não dá, né?

Então por que parecemos estar todos estagnados? Em algum momento no passado, a paudurescênscia da alma se fez riff – e parou por naqueles idos. Nunca mais uma rock song conseguiu traduzir esse anseio.

OK, vez ou outra, você escuta uma grande canção que, mesmo sem o peso rítmico bruto, te desconstrói por completo. Tipo “The Wrestler”, do Bruce Springsteen. Ih, mas o Boss também tá no time dos veteranos. Fodeu.

O show começou e eu estava lá, feliz e saltitante com “Raw Power”, “Search and Destroy” (e cada berro de “somebody gotta save my soul” que saía da minha boca vinha de algum lugar muito pertinente de mim que eu não consegui identificar. Seria alma?). Mas eu percebi que alguma coisa estava errada quando, no meio de “Loose”, eu percebi que não sentia vontade de encaixar meu pau no primeiro orifício disponível, orgânico ou não. Veja que essa foi uma música que eu nunca escutava no carro porque eu tinha certeza que, desacompanhado, eu acabaria tentando foder o radiador ou o escapamento – o que teria conseqüências catastróficas para minha saúde sexual. Mas enquanto Iggy entoava “I’m stickin’ deep inside”, eu só pensava em ir mijar e achar um canto mais sossegado para ver o show.

“Velho”, já ouço vários de vocês dizendo. Ou melhor, xingando.

(Aliás, parênteses: temos um culto tão doentio com a ideia de juventude eterna, que “velho” passou a ser xingamento. Triste, isso. Fecha parênteses).

Pode ser xaropice minha. Ou até excesso de emoção, já que eu estava vindo de um dia excepcionalmente bom, no qual eu recuperei coisas que julgava perdidas (como a minha relação com a minha família, por exemplo). Vai que eu estava tão êxtase por causa disso que tudo o mais seria anticlímax. Mas duvido. Eu não estava conseguindo me emocionar com aquilo, mesmo achando bom.

(Sim, bom mesmo. James Williamson tem um feeling absurdo na guitarra e o sax foi mais que bem-vindo. O batera era burocrático, mas ainda assim, o resultado final era forte. E a versão de "The Passenger" me lembrou porque todas as bandas de casa noturna que tentam tocar esta música soam pífias. Só com Iggy esses versos fazem sentidos - pode chorar, Dinho Ouro Preto.)

Era impossível a emoção. Sim, gosto de Stooges pra caralho. Mas não eram eles que eu estava vendo lá. Eu estava vendo cinco operários da música (dois deles, a cara do Roger Waters) trabalhando duro para dar o que os “compradores” (não vou usar “clientes”) queriam. Iggy tem que tumultuar o palco? Então dá-lhe maçaroca de gente durante “Shake Appeal”. Queremos vê-lo brincar de símbolo sexual? Dá-lhe microfone brandido como falo, bunda de fora e versos entoados de quatro durante “I Wanna Be Your Dog”.. Consolidar a imagem de loução? Iggy botou a piroca pra fora no último segundo de show. E todo mundo aplaudiu. Eêêêêê!

Claro que o povo ia aplaudir. Foram lá para isso. Ou melhor, foram lá para filmar e fotografar, e postar isso no YouTube ou Orkut, para ter a sensação de viver depois. Porque viver na hora, não é todo mundo que consegue. Só consegue quando conta depois pros outros. E quem consegue... bem, não faltava gente vestida como se estivesse indo para a Pachá, e esitvesse Iggy ou o Jota Quest no palco, a vibe seria a mesma. Mas esses, reconheço, eram exceção.
Acho que o motivo do meu “não-curtir” o show está, na verdade, aí. No público. Eu vi a cara da minha geração, e acho que não gostei. Sim, a área VIP (benesses profissionais) estava tomada por todas aquelas garotas maravilhosas que eu nunca vou comer. Povo de pele perfeita, designer clothes e comportamento estereotipado. Aí vou dar um refresco fora do VIP e... encontro o mesmo público. Todo mundo bem criado, bem vitaminado e gastando 200 paus só no ingresso (mais transporte, “combustíveis”, e etc) só para tentar um pouco de diverso por umas horas. Melhor que pagar essa grana em impostos ou remédios, é verdade. Mas um povo bonitão pela beleza em si. Uma beleza que não é saúde (é a geração Rivotril, afinal de contas. Ou a geração diet paranoia), nem felicidade (além do Rivo, psicanálise, drogas como única forma de recreação e “liberação sexual” por obrigação). Uma alegria que funciona em qualquer coisa e qualquer lugar, basta ter o combustível certo e a grana para comprar. Porque gente querendo vender não falta. Iggy tava vendendo. É um grande vendedor, e entregou exatamente o que pedimos. Beleza. Mas até aí, qualquer astro do breganejo faz a mesma coisa. Dá o que seu público espera, e se escora na sua história gloriosa para justificar a ausência de um presente digno. Só que em vez de “iôiôiô” ou “sai do chão”, a palavra de ordem era “fuck”.

E esse público comprador, esse pessoal da felicidade comprada no cartão, aplaude uma pica. Acha rock’n’roll pra caralho mostrar a genitália. No final do chão, Iggydeixa entrever o pau como senha para consagração.

Sei lá, mas um público que delira tanto só de ver um falo tem que ter falhado feio em alguma parte de sua essência.

6 comentários:

Ivan disse...

isso me lembra o show que vi aqui do Iron Maiden. na época pensei. teria sido o show da minha vida, se tivesse visto vinte anos antes. a essa altura da vida, já tinha virado uma paródia. as músicas estavam todas lá, a banda era mesma etc. mas algo não fazia mais sentido.

fernando lalli disse...

Esse povo pagante é o mesmo que está neste exato momento malhando o Sonic Youth no orkut só porque eles não tocaram os 'hits'.

Em tempo: não consigo entender alguém que passa o tempo inteiro de um show filmando ou fotografando [sem que seja bem pago pra isso]. Só tirei minha máquina fotográfica do bolso umas três vezes. Pô: um palco inteiro na minha frente e eu vou ficar olhando pruma telinha de merda???

Anônimo disse...

show hoje em dia depende da companhia. se for boa, até mallu magalhaes fica legal.

iggy eu nao precisei ficar me matando lá na frente pq sou velho pra isso. mas fiquei apenas lá no fundo, com minha mina, sem nego suado caindo em cima de mim derrubando cerveja, e apenas aproveitando o momento.

Anônimo disse...

show de rock? onde? existe isso ainda? sério... nossa... que cousa! credo!

Flávio Jacobsen disse...

Entendi perfeitamente, Léo.

Flávio Jacobsen disse...
Este comentário foi removido pelo autor.