Fiquei sabendo pelo blog do Rubens. Aí fui lá pro blog do Ivan e da Adri e vi que ele se foi.Pô...
Toda vez que eu ia/vou pra Curitiba, tinha/tenho que visitar o Ivan e a Adri. E visitar os dois - duas das pessoas mais queridas, inteligentes e amáveis que eu conheço - siginificava também visitar o Dogui e a Baby, cães tão amigos e parceiros quanto seus...
Eu ia escrever "donos", mas o Ivan e a Adri nunca foram "donos" do Dogui, da Baby ou dos outros (muitos) bichos que passam por aquela casa. Eles estavam mais para irmãos, cúmplices, parceiros - aqueles camaradas que deixam os amigos viver sua vida, os ajudam dentro do possível e sabem que podem contar incondicionalmente com eles quando a barra pesar. É a relação que eu via entre eles. Uma relação que, no meu léxico, é a única que pode ser chamada de amor.
O Jello Biafra diz, naquele livro Barulho, do André Barcinski, que a gata dele, Pippen (provavelmente já falecida também) era "um museu do rock underground americano. De Subhumans a Hüsker Dü, todo mundo já usou Pippen como travesseiro". Bom, o Dogui era um museu do underground brasileiro, mas ninguém nunca usou ele como travesseiro. A gente - e digo "a gente" porque eu sempre me senti acolhido naquela casa desde a primeira vez que fui lá, levado pelo Rubão em 2005 - a gente sempre acariciava ele, puxava umas frases que ele respondia com piedoso silêncio. E isso era um ato de gentileza dele. Aa maioria de nossas frases retóricas e ocas ("não vai no Rock de Inverno hoje, Dogui?") merecia uma mordida ou pelo menos um latido - a não ser quando o Carlinho La Carne falava. Esse tinha uma comunicação mais profunda com o Dogui.
Eu me lembro do Dogui já velhinho carregando o "brinquedo" dele pela casa - um grande regador de plástico, todo mastigado. Mesmo velho, Dogui brincava - sem a urgência de um filhote, era mais a alegria genuína de bicho que sabe brincar. Me lembro da gente fumando narguilé entre as plantas da Adri e, enquanto a Baby ia atrás de cafunés com aquele olhar irresistível e aquele pelo macio, o Dogui só ficava por perto, de olho. Só queria saber que a gente estava por perto.
Da última vez que eu fui lá - em fevereiro de 2009, quando achei que ia morar de vez em Curitiba (não rolou, claro) - o Dogui já tava bem doente, reumático e bufante, e precisava de remédios para aguentar o dia. Mas apesar da dor, ele ainda tentava ficar perto a maior parte possível do tempo. Só se afastava por uns tempos ou porque não queria causar mais preocupação mais ou por querer ser reservado mesmo.
Lembro que, quando saí de lá, a Lidi falou que achava que talvez já fosse hora de sacrificar, pra não prolongar mais o sofrimento. Sempre achei a eutanásia um ato de verdadeiro amor, de verdadeira piedade. Um ato dificílimo, extremamente duro, que mostra o quanto de nosso amor é desapego, com o qual muitos animais são abençoados e do qual muito seres humanos são privados por causa de noções equivocadas de piedade. E quando minha mãe levou a única cadela que viveu em nossa casa para o veterinário, em 2004, eu entendi o ato dela - e porque ela, minha mãe, demorou tanto para tomar a decisão, mesmo o bicho tendo estado ruim por meses. É que o amor dela, do meu pai e do meu irmão (sim, do irmão que eu tanto vilipendio aqui) era tão grande - e o dela por eles, maior ainda - que a vida do bicho se justificava, apesar da dor.
A vida ia além da dor.
E para mim, pareceu óbvio que era por isso que o Dogui tava ali ainda - nem tão firme, nem tão forte. Mas cheio de amor - pelo Ivan, pela Adri e pelos outros irmãos de quatro patas daquela casa.
Não é que agora o amor acabou. Mas o Dogui fez o que teve que fazer e foi descansar lá os os cães descansam.
Posso dizer, de minha parte, que minha vida seria menos feliz se eu não tivesse conhecido o Dogui. E posso dizer que agora tenho um amigo a menos para visitar em Curitiba.
Um abraço, Dogui. Te dei vários enquanto você estava vivo, e se eu tô chorando agora, é porque não vou poder dar mais nenhum. Mas fico feliz paca por ter te conhecido.
Fica em paz, meu brother. Até!

2 comentários:
na verdade até o final do ano passado ele ainda estava relativamente bem. e os remédios ajudavam a manter a dor sob relativo controle, como aliás fazem com a gente mesmo. já no final de dezembro é que foi diagnosticado um câncer no baço, ainda em estágio inicial, e um problema na próstata. mesmo assim ele ainda andava, e comia na boa. mas a coisa ferrou mesmo há duas semanas, depois que ele foi picado por algum bicho peçonhento na boca. aí, mesmo medicado e tal, depois que ele voltou da clínica nitidamente se entregou, desistiu, cansou. e aí a gente teve que tomar a decisão, com o apoio do médico inclusive. o bom é que pudemos acompanhar ele até o fim, os últimos momentos. morreu dormindo e tranquilo, sabendo que a gente tava ali do lado. apesar de toda a falta e vazio, foi um alívio saber que ele não ia sofrer mais.
abs
a baby tá aqui, quieta, seu clec clec atrás de mim também diminuiu - mas tá aqui. ás vezes quando acordo e fico lendo na cama de manhã, o cachorro do vizinho me ilude e aí tenho que lembrar que ali o dogui não vai mais correr...mas daí, invariavelmente acabo sorrindo com alguma lembrança do meu amigo. sinto muito a falta dele, ainda não fui direito no quintal, mas ainda assim me sinto tranquila e sei que é porque eu estava do lado dele, ele dormiu em cima da minha mão. isso me deixa calma, embora não diminua a tristeza. abraço. lindas suas palavras.
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