quarta-feira, 3 de março de 2010

Sono abraçado a tecidos

Minha mulher dorme com minha camisa quando eu passo à noite fora, ou quando vou me ausentar por muito tempo.

Eu só percebo no dia seguinte, quando meu sono passa e ela já foi trabalhar, a camiseta branca e puída ainda em cima da cama, no lado dela – que ela vestia à noite e eu, como sempre, não notei ao chegar.

Ela sublima minha ausência com o abraço de um tecido que tem mais do meu cheiro que qualquer sabão em pó pode lavar.

Eu nunca fico procurando por abraços de pano dela quando ela se vai. Não conscientemente, Mas quando acordo, estou sempre do lado dela na cama, com o rosto enterrado no lençol. E quando ela volta e me vê dormindo assim, fica me olhando. Por vários minutos.

Minha mulher não gosta das músicas que eu ouço, dos textos que eu escrevo, das coisas que eu leio e dos filmes que eu assisto. Não gosta da devassidão que vive passeando pela minha mente e cisma de aparecer em palavras, não gosta dos meus pesadelos anticlericais, não gosta quando eu faço planos que não a incluem. E não gosta quando eu passo a noite fora.

Mas ela gosta do meu cheiro e do meu abraço. E isso supera tudo o que ela não gosta.

Por isso eu demoro a me desfazer de minhas camisetas.

2 comentários:

Larisse disse...

Sweet.

TCV disse...

Pô, bonito isso.