sexta-feira, 5 de junho de 2009

Bondage is THE BEST

Ah, como eu adoro essa internet!

Sem ela, como as pessoas poderiam expressar suas preferências mais obscuras? E mesmo que isso signifique uma cota preocupante de neonazistas, pedófilos e sei lá o que mais, também representa realização, potencial futuro e, mais que tudo, identificação.

Assim acontece com os fetichistas, gente que fica sexualmente virada no avesso por preferências que a moral vigente definiria como "desviantes" ou coisa pior.

Sexo. Fetiche. Paixão que não é obsessão, vida sentida nos vasos capilares, músculos cardíacos e tecidos cavernosos.

Por conta disso, esse senhor, Antonio Carlos Monteiro - advogado carioca de 50 anos - pôde se lançar no mercado de vídeos de bondage e fazer história no imaginário do desejo de alguns poucos - mesmo que seja uma história muda, contada em cadeiras ébrias de bares insuspeitos e consultórios de psicanalistas. Porque quase nenhum bondagista chega e fala: "é, eu sou" (como eu falo).

Esse ACM é, por muitos aspectos, mais confiável que aquele outro que faz a infâmia da sigla. Mas que posso dizer eu sobre o caráter do homem, se só conheço o trabalho dele?

Nada. Por isso pedi a palavra a ele. Morando no Rio e tocando o site Bound Brazil e o blog relativo a ele, ACM é pioneiro, sim, num mercado que ainda nem se formou - e pode nem se formar. É também o único brasileiro que emplacou um vídeo na malandra "produtora" Harmony Concepts. E - caralho, tomem a referência óbvia - é o cara que fotografou a Priscila, do BBB 9, amarrada e amordaçada.

Chega de falar. Palavras ao homem, numa entrevista realizada via e-mail numa sexta-feira bem esquisita:


Leo Vinhas: Antes um preâmbulo: você disse ter feito filmes nos EUA. Em qual produtora? Por quanto tempo? Fazia o que aqui antes?

ACM: Opps! Não fiz filmes nos EUA, fiz filmes para uma distribuidora nos EUA, aliás, para duas, Harmony Concepts e Close-Up Concepts, entre 1997 e 1998. Na verdade mandei alguns trabalhos, porém só dois emplacaram, sendo o mais “famoso” deles, o que ficou em catálogo que tinha o sugestivo nome de “Rosemary Revenge”, a vingança de Rosemary, uma empregada doméstica que arma uma vingança contra as patroas que a maltratam através de severas doses de bondage. A empregada, coitada, é amarrada por realizar de forma catastrófica seus afazeres... Se essa moda pega!

Mas o vídeo Tupiniquim rodado em VHS na bela e pacata cidade de Niterói aqui no Rio de Janeiro, rendeu alguns trocados e vendeu horrores para a época, foram 3.921 cópias só no primeiro mês de entrada em catálogo. Guardo esses números como um troféu, num tempo em que os vídeos eram encomendados através dos folhetos nas revistas fetichistas que já agonizavam devido ao avanço da Internet, e pelas páginas dessas produtoras que ainda não possuíam tecnologia para que os vídeos fossem rodados direto no site.

Resumindo a ópera, produtores de renome tomaram conhecimento da minha modesta existência e viram que por aqui esse filão também emplacava. Por conseqüência, passei a fazer parte do seleto grupo de excluídos, e não fosse a “força” que obtive da Star Chandler, a linda e maravilhosa ex-modelo e naquela época dirigindo a sessão de vídeos da Harmony, e do meu amigo Eric Holman, proprietário do grupo FM Concepts, meu trabalho teria ido rigorosamente para a lixeira.

É bom lembrar que esses vídeos tinham a metragem de 60 minutos, a chamada época romântica dos filmes de bondage.


Como surgiu a oportunidade de você ir trabalhar como produtor de bondage nos EUA?
Nunca houve oportunidade, é bom que se diga, porque entrei abrindo a porta com um pontapé. Simplesmente achei que se os caras de lá podiam realizar aquele tipo de trabalho, eu também poderia. Na época a Harmony produzia muito pouco material, assim como a Close-Up e a Lindon. Eles usavam um artifício muito comum: produzam, façam e enviem. Nós publicamos, vendemos, arrecadamos a maior fatia do bolo e as migalhas ficam ao seu dispor. Essa era a regra, fascista, escrota, mas era a regra, e todo mundo utilizava esse canal. Eric Holman, John Woods, Jay Edwards, Isaac W, toda uma galera que engatinhava fazendo vídeos caseiros, que os distribuidores chamavam de “Home made”, vendia sua alma ao diabo disfarçado de grande produtora.

Comigo não foi diferente, afinal eu valia menos que um grão de areia e ainda vinha com o selo de terceiro mundo estampado nas costas.

Lembro que um dia através de uma conversa por email o Eric Holman me confessou que eles imaginavam que meus vídeos chegariam com um monte de mulata do Sargentelli amarrada com uma corda podre de sisal, sambando ao som de uma bateria de Escola de Samba...


Podemos chamar o cenário de produções bondagistas de lá de "indústria"? Ou é um exagero?
Hoje pode ser chamada de um mega indústria, sem nenhum exagero.

Veja: o grupo Hogtied fatura cerca de um milhão e oitocentos mil dólares por mês, são sessenta mil membros pagantes em seus sites, como o próprio Hogtied, o Water Bondage e outros menos votados. O proprietário Peter Acworth comprou no ano passado um antigo prédio que durante a Segunda Guerra era um Arsenal de Marinha pela bagatela de quinze milhões de dólares, e ali, expande seus negócios onde as modelos que fazem parte de seu elenco têm direito a assistência médica e seguro saúde.

O concorrente Kinky desbancou a indústria pornográfica no ano passado em termos de faturamento, oferecendo bondage, sadomasoquismo e disciplina com altas doses de sacanagem pornográfica explícita, como o Sex in Bondage, e outros, unindo o útil ao agradável.
Esses sites não respeitam nenhum princípio básico fetichista e cagam literalmente para termos e filosofias que agreguem algum conceito de bondage. Misturam tudo e a química empregada consegue agrupar todo mundo num só lugar, crescendo e expandindo, pegando gente de todo lado.

Os outros três mil de sites de bondage espalhados pelos Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra, e alguns outros intrusos da Itália, Espanha e desde o ano passado do Brasil, pegam o que sobra dessa gente que assina o Hogtied ou o Kinky, e conta com aqueles mais ortodoxos que têm seu modo próprio e singular de enxergar o verdadeiro fetiche.

Por que, apesar de uma reconhecida indústria pornográfica, os filmes brasileiros parecem não conter muito fetiche? Não só o bondage, mas qualquer outro...

Porque aqui bondage ainda é desconhecido e muito pouca gente carrega essas emoções na veia. Os filmes pornográficos feitos aqui procuram enaltecer a genialidade da putaria que as mulheres brasileiras espalharam pelo mundo afora, por isso, nada além de trepadas é comercializado porque não tem revenda lá fora.

Além de bondage, outros fetiches caminham de mãos dadas rumo ao esquecimento por essas terras, e por isso, cada vez menos pessoas se interessam e se acham “malucos e pervertidos” por gostar de algo inusitado, que não se vê em lugar algum.

Os caras produzem verdadeiras obras patéticas e sem o mínimo conteúdo quando o assunto é pornografia por aqui e, os que tentam fazer alguma coisa que envolva fetiche, o cuidado é irrelevante e os fetiches aparecem em espasmos e com péssima qualidade.

Muita gente ainda confunde a fantasia da "restringir" a pessoa, o bondage, com violência, com tendências sádicas. O que você tem a dizer para essas pessoas?

Essas pessoas devem procurar a leitura e a informação, principalmente quem tem um canal de comunicação, jornal, revista ou até na Internet. Banalizam as atividades porque não tem conhecimento do conteúdo ou da essência. Bondage é a primeira letra da sigla mundial criada que se chama BDSM. Até aí tudo bem, mas é justo e quando aparecem as diferenças. Uma mulher amarrada e amordaçada jamais será uma cena sadomasoquista se a mesma não estiver sofrendo castigos ou humilhações.

Bondage remete muito mais a aventura porque é de lá que vêm à teia que move o fetichista desde os tempos da infância, dos desenhos animados, dos filmes e seriados que traziam, e trazem, as mulheres em apuros. Dessa ótica criam-se as heroínas e os sites de bondage apenas reproduzem essas cenas condensadas em um único filme.

O tesão que aparece através desse canal que liga o fetiche ao indivíduo, é levado ao longo da vida e praticado em relações sexuais, quando a parceira representa essas divas juvenis e as amarramos para transar. E a confusão é ainda maior quando esse episódio envolve alguma “celebridade” mesmo que ela seja relâmpago.

Você está falando da Priscila, do BBB.

Levei sarrafo de todo lado por conta do episódio envolvendo essa garota. A moça posou para o Bound Brazil em Outubro de 2008 e ficou famosa em Janeiro passado. Conclusão: alguém “achou” suas fotos no site que só fala de bondage e apregoaram aos quatro cantos que eram cenas de sadomasoquismo misturadas com pornografia. Isso rendeu doses de imbecilidades que os sites sensacionalistas de fofocas espalharam pela Internet. Aliás, mais chato que site de fofoca só a ampulheta do Windows...

Até explicar que ela nunca foi espancada, que nunca transou para as câmeras, que nunca se prostituiu através do site foi uma merda, e essa palhaçada só terminou quando ao fim do Big Brother que ela quase faturou, explicou numa entrevista a essa gente que tirou as fotos porque gostou da proposta e nada tinha demais. Aí me deixaram em paz...

Quando você decidiu voltar ao Brasil?

Fiquei três anos em Amsterdam e lá aprendi tudo que sei sobre fetiches, que me faz hoje escrever um blog sobre vários temas fetichistas com noventa mil entradas. Lá ganhei vida e descobri um mundo ao qual eu pertencia sem nunca ter estado por lá. Parece estranho, mas a sensação é essa. Vieram os contatos com as pessoas que me introduziram na Harmony e outras armações. Voltei porque tinha concluído minha pós-graduação e também por achar que não valia mais a pena trabalhar por lá. Mas foi uma escola e tanto. Muitas dessas experiências eu relato nas historinhas que conto no blog, e gosto muito de lembrar e falar desses assuntos.

Quais são as dificuldades que você está encontrando com o Brazil Bound? E quais as realizações que você já conquistou?

A primeira dificuldade foi acreditar que era possível tentar. Mas uma vez na roda só resta encarar de frente ou sucumbir. Encontrar as garotas que acreditassem que as fotos e os vídeos que se produzia antes do site estar ativo serviriam mesmo para esse fim, foi outra grande barra a enfrentar. Muitas vezes me taxaram como um tarado que queria as fotos para colecionar e, depois, espalhar pela internet. Montar o site no aspecto tecnológico, fazer as operadoras de cartões de crédito acreditarem em mim, conseguir os primeiros membros e aparecer na vitrine mundial, foi o terceiro passo conquistado.

Agora é seguir adiante depois de sete meses na berlinda. Atrair membros brasileiros é no momento o maior desafio do Bound Brazil. O site hoje roda diariamente com cerca de 135 membros/dia. Parece pouco, mas se analisarmos pelo aspecto visibilidade já é uma vitória a ser comemorada. Pena que dessa gente que assina o site o contingente brasileiro, somado ao sul-americano, não ultrapassa os 10%.

O site teve uma grande aceitação na Europa e recebe constantes elogios de sites especializados em análise, como o Black Fox. Mas ainda é pouco difundido nos EUA, pelo protecionismo cínico aos mais de três mil sites americanos que exploram esse fetiche por lá.

Meu maior prazer é ver que hoje metade dos membros são de lá, legítimos filhos da terra do Tio Sam, e quer eles queiram ou não, estamos a frente de alguns sites com mais de seis anos de existência, e atualizamos com o dobro de material que eles lançam.

Apresentamos, hoje, um site com setenta modelos inéditas enquanto eles dividem as mesmas de sempre porque o material humano lá é escasso.Acredito numa virada heróica após a feira Fetish Con em Agosto, porque consegui um stand através do Verotel que me apóia e, mesmo sendo holandês, tem grande penetração por lá.

Como você seleciona as modelos? Elas vêm já da indústria pornô, ou rola um casting mais aberto?

As modelos do Bound Brazil são legitimas representantes do que a indústria fetichista resolveu chamar de “Girl Next Door”. São as mulheres comuns, que você encontra no dia a dia, na rua, no trabalho, no metrô, no restaurante, pessoas normais, porque assim eu enxergo a essência de bondage, um fetiche praticado por qualquer pessoa que tenha gosto em fazer. Não poderia fugir a essa regra no site. As mulheres da indústria pornô têm uma outra visão do assunto e, por isso, jamais pensei na possibilidade de buscar elenco lá, e modelos profissionais então nem pensar, pois seriam muito “artificiais” para apresentar as cenas que o fetiche solicita. No começo foi uma barra pesadíssima achar modelos para um trabalho que era uma promessa, mas hoje a procura é inversa e tem aquela velha tática do “uma traz a outra”. Com isso, o casting é aberto a todas, sem a menor dúvida.

Quão longe você acha que o seu site pode chegar? Está preparado para a concorrência se a coisa vingar? (risos)

Bom, dando uma de cigana desajeitada da Praça dos Paraíbas aqui no Largo do Machado no Rio de Janeuro, creio que o futuro será brilhante sempre e quando eu nunca desanime. Investi uma grana preta nessa idéia e agora trabalho como um louco para que não tenha que abaixar a cabeça diante do espelho e me chamar de babaca.

Creio que minhas convicções estão corretas e tenho esperança que eu siga com esse projeto adiante sem pestanejar, sempre criando coisas novas porque a novidade vende e divulga. Não quero dar uma de presunçoso achando que sou algum pioneiro, e nem espero a construção de uma estátua no mais longínquo antro fetichista dessa terra atrasada. Muito pelo contrário, porque acho que o futuro é agora e estou fazendo o que eu gosto, mostrando uma arte que eu aprendi lá atrás em Amsterdam quando comecei a praticar os primeiros nós de bondage.

A concorrência pesada de lá não me assusta, porque me acho capaz de ter a noção exata do que um site desse porte representa para quem acessa, o que me importuna é a descriminação e o preconceito dos grandes sites de busca em não aceitarem um site estrangeiro em seu rol, isso irrita e muito.

Desde que resolvi tocar esse projeto adiante, em junho do ano passado, achei que já era hora de por a cara a tapa e assumir meu lado “B”, sem vergonhas ou constrangimentos que um dia pudessem me levar a retroceder.

Minha namorada enche meu saco por conta desse trabalho, mas no fundo sabe da importância que isso tem a ver comigo mesmo, por isso, fora as broncas costumeiras quando vê uma cena mais sensual, chega a me apoiar com a força necessária que eu tanto preciso. No mais, vou à luta e estou na área, se derrubar, é pênalti!


Leonardo Vinhas recomenda:

Além do Bound Brazil, meus sites favoritos de bondage são:

Moraxian
Kidnap Klub
Natasha Flade
Paragon Video
Centaur Celluloid

3 comentários:

Anônimo disse...

No comments for a whole week... symptomatic.

Flávio Jacobsen disse...

Dae, Léo. bom te ler de novo na web. Te linkei lá no Quebradêra novo. Agora ativo direto. Logo nos veremos, afinal a gente sempre se vê mesmo sem querer, né? Vem pro Rock de Inverno com Fellini e tudo? Hehe. Abraço!

Fausto Salvadori disse...

Cara, muito bacana essa entrevista. Esse, sim, é um ACM que o Brasil merece. Queria conhecer esse cara.