Passei as últimas duas semanas com os ânimos exaltados e o bom senso zerado. Consequentemente, as opiniões espontâneas saíam tão equivocadas quanto apaixonadas (i.e.: falava merda compulsivamente), e escutei de familiares: “você tem que ser mais humano”.
Ouvi muito essa frase ao longo da minha vida, direcionada a mim e a outros. Só não sei se entendo o que ela significa.
Me lembro de uma entrevista que o Tim Maia deu para a Bizz quando lançava um de seus últimos (e menos inspirados) discos, Nova Era Glacial. Ele dizia que ia batizar a obra de Tim Maia do Brasil. “Mas aí eu lembrei que Luiz Estevão é do Brasil, Paulinho Paiakan é do Brasil. Então esqueci a idéia”, justificou o gordoidão. Raciocínio semelhante pode ser usado para “ser mais humano”.
O que faz do ser humano o que ele é? Não sei, mas o ser humano é uma criatura que mata por razões que não a auto-preservação – talvez a única a fazer algo do tipo, e com requintes de crueldade. O ser humano destrói o ambiente que vive para ter mais espaço e mais recursos para fazer nada. O ser humano destrói o próprio corpo numas de esquecer as agruras de ser humano.
O ser humano polui e se polui, destrói e se destrói.
O ser humano usa filhos para prender ou ameaçar uma pessoa, usa o afeto como moeda de negociação e a caridade como base de chantagem.
O ser humano cobra favores, nega auxílio, trapaceia, falsifica e dissimula.
O se humano é inteligente o suficiente para criar “gênios” da estatura de Josef Goebbels e Henry Kissinger. O ser humano se organiza politicamente e possibilita a existência de Newton Carodso e Heloísa Helena.
Entre os seres humanos, pessoas como Reinaldo Azevedo, Latino, Fernando Bonassi e Zíbia Gasparetto são respeitados e até tem fãs. Muitos fãs. Todos humanos, claro.
Os seres humanos adultos às vezes recriminam suas crianças por viver num mundo de fantasia, mas querem que eles acreditem que um sujeito que andou sobre as águas voltou dos mortos e multiplicou pães (e depois falou: “não quero chamar a atenção, valeu?”). E ainda tratam essa crença como certificado de idoneidade.
Foram seres humanos que criaram o Orkut, a Igreja Universal, o formulário em três vias e a publicidade.
O ser humano criou toda uma série de valores e regras para controlar alguns enquanto o criador de tais normas se arroga os direitos de burlá-las segundo seus próprios critérios.
Longe de mim exaltar o mundo animal em detrimento do humano, mas essas são todas coisas muito humanas.
Mas não vou ser mal humorado. O ser humano não criou o boi, mas descobriu o jeito de fazer uma costela no fogo de chão. Isso já lhe dá moral, principalmente no Oeste do Paraná.
O ser humano não criou a uva, mas viu que dela dá para fazer vinho.
E se o ser humano inventou o colchão ortopédico, compôs A Day In The Life e escreveu The Call of The Wild, ainda dá para limpar a barra dele.
E, claro, a Megan Fox é um ser humano. A espécie ainda tem salvação.
Mas juro que ainda não sei o que as pessoas querem dizer quando me pedem para ser “mais humano”.
terça-feira, 23 de junho de 2009
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3 comentários:
"O ser humano não criou o boi"
Há controvérsias! =)
Na verdade, na verdade, quando uma pessoa pede para outra "ser mais humana", quer dizer "seja mais parecida comigo". Afinal, como se diz, "o bom juiz julga os outros por si próprio"...
talvez a principal frase da vida é: o ser humano é superestimado.
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