Em Foz, há um chef de cozinha e professor de gastronomia que muitos conhecem, cujo nome não coloco aqui por precaução (mas quem é de lá provavelmente sabe de qeum eu estou falando). Ele não é identificado pela cadeira de rodas na qual ele se move, e sim pela sua reconhecida estupidez e truculência, o que faz com que alguns maniqueístas preguiçosos achem que a deficiência, adquirida após ser baleado, o tornou amargo. Que nada. Ele sempre foi assim.
Esse figura sempre ostentou orgulhosamente sua condição de “melhor chef da região” – da qual eu tenho sinceras dúvidas, diga-se de passagem.Aliás, acho que não há nenhum grande chefe ali. Pelo menos nenhum digno da pompa que eles gostam de conferir a si próprios. E a desse camarada era tanta, que ele se achava no direito de humilhar e agredir seus funcionários. Não estou usando de linguagem figurada aqui. Ele chegava até a dar tapas na cara do pessoal de sua cozinha, chamá-los de ralé, bandido, incompetente e coisas bem piores. Essas são histórias de fontes bem confiáveis. Há algumas piores, mas que eu julgo pertencer ao campo da boataria. Nunca se sabe, mas não vou dar trela a isso se não tenho certeza.
O fato é que um de seus subordinados se encheu de tanta humilhação e, dias após ter sido despedido, ficou esperando pelo sujeito num dos hotéis em que ele trabalhava. Quando o chef chegou, seis disparos. Sim, o cara atirou no ex-patrão. Cinco projéteis o atingiram, deixando-o paraplégico.
Você pensaria que depois disso o cara aprenderia uma lição, mas ele continuou sendo quem sempre foi. Inclusive com os tapas. E parece ter prazer especial em humilhar sua secretária pessoal – contratada para, entre outras coisas, auxiliá-lo na higiene básica. Já vi ele deixá-la esperando na chuva em eventos especiais porque ela, como empregada, não pode sequer freqüentar os mesmos ambientes que ele. Para não falar das humilhações às quais ele submete alunos e estagiários (e coordenadores dos cursos continuam a contrata-lo porque é, como ouvi de um deles, “politicamente conveniente”. So much for the education).
Por que estou contando isso? Não é porque assisti o último episódio da segunda temporada de House, na qual ele é baleado. E sim porque esse episódio cutucou em algumas coisas que estão fervendo dentro de mim.
A vida é extrema. Mesmo quem sai para beber champanhe na companhia do cachooro no Shopping Iguatemi às duas da tarde vai se foder feio em algum momento da vida. Nossa existência aqui pode ter percalços mais ou menos pesados para cada um – já que esse peso é uma medida totalmente individual e relativa – mas não há zona de conforto que dure para sempre. Um dia a casa cai – e claro, dá para reerguê-la ou construir outra. Ou várias outras. Mas uma hora desmorona.
Agora, o que você faz depois que tudo ruiu? Como você lida com esses – na falta de palavra melhor – traumas? Por mais que você adquira a postura “a vida continua”, você foi afetado. Quando você se desestabiliza, não recupera o equilíbrio sem um preço. E cada um paga como pode.
Uma amiga foi estuprada há uns anos. Uma pessoa doce e confusa, que ficou mais doce e mais confusa depois de tudo que passou. Ela tem sonhos terríveis, pesadelos assustadores. O suicídio vive rondando a cabeça dela – diariamente. Mas ela também tem desejos (sim, tô falando de séquisso). E também tem força, mesmo quando ela diz não ter.
Tem gente que vivenciou esse fato ao lado dela e passou impune. Gente que disse para ela não ir à polícia. Gente que disse que o ocorrido foi mais culpa dela que do cara. Todos pessoas próximas a ela. O ser humano sempre vai me surpreender em sua capacidade de ser medíocre, mesquinho e escroto.
Minha mãe envelheceu uns vinte anos em poucos meses recentemente. Ninguém dava nem 50 anos para ela, agora ela parece ter mais de 70 (tem 65). Culpa de problemas familiares, como uma irmã (minha tia) desequilibrada e dois filhos que se odeiam – eu e meu irmão. Não estou livrando a cara dela de certas coisas. Ela e meu pai poderiam muito bem ter interferido anos atrás, quando meu irmão me agredia e me humilhava. Para quem não sabe: ele fazia eu lavar as mãos antes de pegar algo dele (como uma revista) porque eu era “sujo”. Cresci ouvindo-o dizer que mulher que desse para mim ou era “louca ou tinha raiva da buceta”. Para não falar em outras coisas. Com tudo isso, estou vendo a velha se acabar. Mas ela ainda não desistiu de viver, empurrou a frustração de ter criado aquele monte de bosta que a tradição me obriga a chamar de irmão e procura viver como pode.
Eu cresci, o tempo passou e "meu irmão" está lá, aos 35 anos encostado na casa dos pais, um eunuco obcecado com o físico, com o conforto e com um patrimônio financeiro que não lhe serve para nada. Estaria pouco me fodendo com ele se recentemente ele não tivesse pisado na bola. Feio. E com o consentimento dos meus pais. Com a ajuda deles, melhor dizendo. Isso é que doeu.
Se eu não tivesse optado por reagir ao que ele fez, talvez estivesse pouco me fodendo mesmo. Mas o saco encheu. Uma das coisas que pesou em minha decisão de sair de Foz foi “querer estar mais perto da família”. Uma lição para mim: esqueça a família, pense mais em você. Me fodi, e me fodi feio. Reagi e o resultado é que agora ir para a casa de meus pais é um desconforto, algo penoso, que me incomoda pra cacete. Principalmente por ver minha mãe naquele estado lamentável. Pra não falar na minha estabilidade emocional, que simplesmente deixou de existir por meses.
Há umas semanas atrás, eu me peguei chorando na porta do terraço do prédio onde trabalho. Queria abri-la, ir à beirada e cair. De novo. Havia jurado para mim mesmo que não iria me permitir chegar a esse ponto, mas esse é o problema dos juramentos. São peremptórios demais para ser cumpridos. A porta estava trancada e eu fiquei ali, segurando a maçaneta e chorando (sim, Tiago, foi aquela sexta que eu fui na sua casa com expressão cadavérica). Mas sei lá, veio uma força. Uma força que veio do Rock de Inverno, que tava rolando lá em Curitiba e eu aqui, só tentando sentir como seria aquela coisa toda. Uma força que veio da minha determinação em continuar vivendo, e que a vida tinha que ser diferente do que estava sendo. Uma força que veio de mim mesmo, porque dessa vez eu não quis recorrer a Deus – não por falta de fé nele (nem me importo mais com isso), mas porque precisava ter fé em mim. Não ia transferir para Deus a responsabilidade sobre minha vida, minhas escolhas. Isso são coisas que os pais fazem aos filhos, e não o contrário.
Vi também outros amigos e parentes capotarem nas curvas de suas escolhas (ou nas escolhas dos outros que os envolvem), mas não vou listar caso por caso aqui. Só fico pensando em como cada um processa seus traumas. E essa amiga citada uns parágrafos atrás, mesmo com toda a escuridão que teima em aparecer dentro dela dia após dia, continua brigando para viver. Entre vícios e enganos, ela ainda vai atrás.
E estou aqui. Essa minha amiga também está, minha namorada, minha irmã, meus amigos e todos os outros que passaram por muita coisa também estão. Brigando pra caralho. Mesmo quando a vida tenta nos enlouquecer. E cada um sabe o tamanho de seu fardo.
Então não é um tiro, um câncer, uma ação estúpida de um desequilibrado que vai nos impedir de viver. Não acredito integralmente na conversa de “acontecimento redentor”, que dá empolgação momentânea mas transforma apenas por um tempo, com base na euforia, do mesmo jeito que não acredito em ficar "carregando cruzes" ou viver se auto-destruindo e achando que isso é solução. Acredito em vida construída no dia-a-dia. Às vezes a duras penas, e às vezes de forma divertida. Ultimamente, eu ando me divertindo e isso tem sido bom demais. Não vai durar pra sempre, porque uma hora a casa cai, de novo. Mas agora eu sei – por mim e por todos esses meus amigos – que sou capaz de reconstruir. E vai ser bom outra vez.
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6 comentários:
Sempre há que continuar.
É como um dos vários geniais diálogos de "Brilho eterno de uma mente sem lembranças":
There's too much beauty to quit.
Essas linhas tem um pouco de cada um de nós que exercemos o direito sagrado de viver...
É foda, mas vale a pena.
Você é um cara brilhante e a luz se apaga somente quando agente quer.
Brigar é bom pra cacete, ainda mais por uma causa justa. Lembre-se: a vida é feita de fases e fezes, portanto ache uma razão pra ser feliz, porque elas existem e só não vemos porque não estamos prontos pra ela.
Um abraço e conte com o amigo!
e eu continuo achando que a salvação pra tudo está na música.
compreendo perfeitamente o que vc tá passando leo. eu mesmo esses dias tive que correr pra casa da minha mãe depois de levar mais uma rasteira da vida. isso no momento em que eu estava tão feliz, que já tava até desconfiando do que vinha logo adiante. e ela (minha mãe) é justamente um exemplo pra mim de perseverança. porque perto do que ela passou, o que eu vivi é fichinha. eu provavelmente se tivesse passado por 10% do que ela passou, já tinha metido uma bala na cabeça a muito tempo. mas sempre (pelo menos até que a velha de capuz negro chegue) tem um outro dia e uma outra razão pra gente levantar e continuar. nem que for só pelo prazer estético. abs e se cuida.
Força aí, Léo. É pancada pra todo lado, eu sei... vamo que vamo...
Tem aquela música do amigo acima, que tô ligado que você curte, que diz que "por enquanto isso é o suficiente pra eu querer continuar". O esquema é esse. Encontra o suficiente e, se por acaso ele vier a deixar de ser, procura alguma outra coisa que seja. Mas continua.
Pelo menos pra escrever para a gente aqui.
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